29/12/11

interrogar a natureza



digo-te de mãos transtornadas. o rosto a latejar:
há outra pele. dentro da tua pele. uma rua de luz
mínima. onde o meu corpo frio. reconhece os limites.
de um lugar ameno. quanto mais longe estás. mais perto me sinto
desse olhar com porte de sombra inquieta. escrevo-te. porque as
palavras. mordem a névoa espessa. lembra-te daqueles instantes. em que juntos. construímos. serenamente. uma reserva de ar puro. as tuas mãos . reflectidas no corpo liso do rio. horas breves. que
condensavam. a essência do eterno. a chuva voltou. e com
ela. regressaram. as sirenes da aurora. que imaginamos. em
manhâs. de alegria instintiva. "as coisas atraem-se como
os planetas".
quando a chuva cessar. hei-de interrogar a natureza: que
nome se dá. a dois corpos. a tremer. debaixo
de um xaile?






*






28/12/11

língua





senta-te aqui a meu lado. estudo a morte da palavra.
enquanto os teus lábios elaboram uma resposta...
noutra língua.
a nossa.
entaramelada
.






*


















27/12/11



luz saqueada


não suporto os olhos.
longe de ti.

doem-me as têmporas

as aves atravessam
cansadas
a luz que os peixes saquearam.

se ao menos me dissesses
que estás mais perto
por seres corpo e pele
do poema.





*





25/12/11

odor do cais


não é o amor das canções. nem o odor do cais. o tiroteio da chuva sobre o mar. que nos leva ao desencanto. é a ressurreição do lume num corpo desistente. o vento que rouba o calor das nossa bocas. a fria insónia. que nos empurra para lugares onde a memória. tem medo de existir.




*




(imagem de sweetcharade)

24/12/11

amolador do Natal







neste Natal era diferente.



nem tudo o que o amolador pedia. com o seu harmónio de
beiços. eram facas. sem gume. guarda-chuvas. sem varetas.
garfos. torcidos. neste tempo. em que a menina da aldeia
prega. rascunhos de sonhos impossíveis. em paredes
vazias. o homem da geringonça. pedia que ela
viesse à janela. com o surrado véu da avó. para
aguçar-lhe o sorriso. ele sabia. como as mãos da menina penetravam
o volume do pó. em busca de uma dádiva. mas nunca apareceu à janela. só o olhar e o harmónio do amolador. resistiam.
mesmo os candeeiros de rua. estavam apagados. este ano. o vulto da menina. permanecia emboscado. às escuras. entre as cortinas. o amolador. arrumou a tralha. e desistiu do ofício. neste Natal.






*






(imagem de chpsauce)

23/12/11



querida imaginação que ainda não pagas impostos


no doloroso advento. da incerteza. "é a prosa da vida que faz falta a muita gente". sentença de escritor. roubam-te a esperança. o fundo olhar da paixão. chegam-se a ti com um fósforo. e querem levar tudo. a troco de um esgar. cotado em bolsa. querem vampirizar o ar que respiras. cuida. meu amor. cuida da prosa. do vagaroso espreguiçar da palavra. leva-a. no cesto da fruta. antes
que apodreça na casca endividada. querem que os teus olhos. calem. as fogueiras. a alegria. o sol. que te venderam. como só teu. e agora. cobram juros. porque existe. porque sim. é preciso cortar em tudo. dizem. porque o sol também é um assalariado.
e a luz que lhe assiste. (à excepção dos senhores que lhe sugaram a energia. toda. renovável). tem custos. umas manhâs às escuras. ou. uns poentes apagados. consolidam as finanças. sabes amor. estamos na boca da turbina. de assépticos. predadores. cuida amor. guarda a palavra. semeia-a no ventre. inventa-a. na dança silenciosa
dos teus lábios. a palavra. em prosa serena. que ainda.
não paga IVA. se já te arrancaram o fôlego. para pagar os juros da divída. salva. a imaginação. que (ainda) não é tributada.




*





(imagem autor desconhecido)

21/12/11

safra



da safra da tarde
meus lábios
saboreiam
ainda os últimos
cristais.
a fome saciada
nos teus seios
empertigados.
busco agora
o perfume destilado
os sinais diluídos
na tépida
nuca.

os músculos doridos
quando fumo
o último cigarro.





*




(imagem autor desconhecido)

20/12/11

rua da evasão



da próxima vez. que a porta abrir. vou descer ao lago sombrio. das minhas memórias. e à luz branda do anoitecer. conto: regressávamos juntos. pelo caminho coberto de ulmeiros. ela. recusava ser envolvida. pelo odor de uma neblina cor-de-rosa. conhecia apenas. a luz exacta dos dias iguais. afastava vozes. que a distraísse. visões assombrosas. de amantes. que sobem abraçados o rio. nunca sentiu vontade de ser beijada. entre ramos de salgueiros. no branco luar de Agosto. ele. sonhava ser amado debaixo de um céu enxuto. tinha muitas cartas inacabadas. em campos estrumados de orvalho. sentia o aguilhão. chamou-a para a intimidade do quarto. e num atrapalhado sermão. falou-lhe. da origem dos frutos. do voo desatinado dos pássaros. da luz amordaçada. na rua da evasão.






*





(imagens dautor desconhecido )

18/12/11

luz de pano




não passa de uma luz

de pano

branco.

um céu inválido

cortinas de sombra

soterram a cidade.

a marcar o território

com a sua caligrafia

de mulher:

este tempo

de húmidas

cabeleiras.

horas

em que regressamos

mais cedo

ao quarto

estreito.

a paisagem

lá fora

leveda

tristeza.

o frio espesso

volta

pelas

estrias

do vento.


ouve-se

de novo

o insuportável ranger

do soalho.






*






12/12/11





carta de inverno



até onde posso ir. meu amor. neste deserto frio. em que me deixaste. a soluçar. para o branco chumbo das nuvens? a chuva parou. logo após a tua despedida. e nem houve tempo. para eu aprovisionar. um cântaro de água dos teus olhos. a súbita carga. de sol. que se abateu. sobre os meus braços. impediu também que deslocasse. para a sombra. o vapor de água. que se avolumou. nas paredes. à medida. que os nossos lábios. iam enrolando. no escuro. suaves teias. consolado. pelo teu ameno. encolher de ombros. não me atrevi. a procurar-te. nem a registar. o número de polícia da tua porta. tínhamos combinado. vagamente. trocar cartas. sem endereço. para que as nossas palavras não fossem violadas. eu. continuo à janela. assistindo. ao vai e vem rotineiro. de asseados automóveis. queimando combustível. em passeios tristes. o sol de inverno. já anda por aí a mendigar neve. pelos montes. e antes que tudo se torne indistinto. no horizonte. peço-te que me envies uma lágrima. em carta registada.






*



09/12/11

pássaro exilado




na praia

os ventos ferem

os olhos

e os veleiros

despejam sobre a esteira do mar

amargas nostalgias.

oiço o canto

da nortada da vidraça

onde me observas.


uma folha perdida

trepida

nos teus olhos

como um pássaro exilado.




*





(imagem de steve hanks)




07/12/11

tatuagem


nos teus olhos. o mar retrai-se. ninguém lhes usurpa o silêncio.
deitam-se sobre estes inválidos versos. os teus olhos. desenham
silhuetas de anjo. olho-te daqui. das margens do poema. queria tanto atravessar o riacho. encontrá-los do outro lado. a correrem. para os meus braços. e quando por fim. o sossego se instalasse. abrir uma carta. ler-te. e os teus olhos. tatuassem










*




(imagem autor desconhecido)

05/12/11

cartomante




fosse eu
um envelope fechado
na tua mão
derretias o lacre
na tua boca rastilho?

fosse eu
um telegrama perdido
no fundo dos teus olhos
escrevias-me
com tua pele furta-cores?

fosse eu
um começo de poema
nos teus lábios
enrolavas-me
na tua língua ametista?

fosse eu
uma encomenda
devolvida ao frio
aquecias-me no teu
ventre cartomante?









*








04/12/11

na hora da minha morte


acende uma vela. com cheiro a jasmim. deixa que o aroma. roube ao ar. tudo o que mancha. o instante da despedida. espalha aquela fragrância que é a tua. e quando a morte me chamar. apaga os círios. e vela-me. com o tule ameno dos teus olhos. o meu corpo. há-de levar tempo. até que arrefeça. entra pela porta estreita. da capela. e vem. silenciosa. aproxima-te do meu rosto. dá-me a tua boca.
beija-me sem pressas. amortalha-me entre os lábios.

já não vou a tempo. de ler. o que escreveste. no livro das condolências. mas. na hora morte. as palavras. são para incinerar. rapidamente. não chores. as lágrimas que verti nos últimos dias. chegam para adubar. a campa que me espera. o calor das tuas mãos. no meu rosto frio. dá à minha morte.
um simulacro de vida. que ninguém repara.




*

30/11/11



hábito das marés


costume muito antigo dos solitários: adiar a
morte...


certas flores não têem pressa em
morrer. contempla-se um corpo interminável.

gerúndio.

por uma fresta.
intrusos. confiscamos
luz. dos flancos.


inútil querer mudar. o hábito das marés.






*






(pintura de ivan contantinovich )

29/11/11

rosas acesas



o vento. vai. demolindo. escarpas.
na solidão. um vento. dócil. que nasce da harmonia
do poema. ergue. no silêncio. nuvens de incenso.
a pele. batida. pelo odor. da palavra. roça. outra pele.
e a silhueta. do amedrontado corpo. acende. as rosas.
toca o rio. cai. procura o trilho mais secreto.
do teu ventre.




*



(imagem by aninha)

28/11/11

praias de silêncio


ai se eu pudesse escrever-te desligado da
paisagem que avisto em ti!
procuro-te em "praias de silêncio"
terreiros despovoados. colinas encobertas.
em que altar imolas o coração?

que sombra de castor te amedronta?
as palavras que trocamos
jazem. inertes. em gamelas de ilusões.
o caminho dos luares arrebatados estreita-se.
pedes-me que abrande este modo incongruente de
conjugar o infinito em olhares opacos
a minha e a tua pele feridas de um cheiro que se ausenta
cicatrizam. por fim.
em prolongadas horas
de insónia.




*


26/11/11



morrer devagar



morri devagar.debruçado sobre o rio.
e quando acordei da morte. havia uma cidade nervosa.
cansada de viver nos meus olhos.
hoje perdi todas as vagas do mar. quando cheguei aos cais. cheirava a gasóleo. e os teus cabelos. fundeavam. ao largo de um porto abandonado.
hoje chegaram as cinzas. das últimas cartas que
arderam nos pesadelos. está mais frio. e a chuva. sim. a impiedosa
chuva. quer-me cegar. vi um pássaro ferido. e uma criança louca.
a correr para um hangar que explodiu.
hoje desligaram os geradores. e a corrente que nos liga ao mistério. foi cortada.
hoje disseram-me.que o melhor é desistir.

hoje morri. devagar.
à beira dos teus olhos.





*




(imagem de deviantart)


23/11/11

rapto




moro aqui. no arco sombrio. da submissa página. fortaleza arruinada.
entre o zumbido das vespas. e muitas cartas sem resposta.
moro aqui. nesta trincheira inútil. imaginando-te. a transpor o muro alto das palavras. fecharam a janela. por onde tantas vezes. as tuas lágrimas escorriam. pedindo mais que um poema.
moro aqui. emboscado. tentando salvar. remendos de um futuro às escuras. os olhos pesam. os joelhos tremem. e tu já não me podes. acudir. as portas estão trancadas. espero-te. na paragem do autocarro.
rapta-me.





*






(imagem de barbara cole)
















21/11/11





podes namorar esta semana. amorosa balancinha


olha para o relógio. abandonado na noite. em que nos despedimos.
marcava uma hora tardia. quando te disse:

"um dia serei perfume da tua pele. na ilha dos corvos"


caminhaste até mim.


"sou do mar. e levo-te seixos. iguais aos que enchem
o teu quarto de marinheiro"


olha para o relógio. a hora incerta. em que nos beijamos. parou. com ligeireza de ave.


cheira a maçâs. nesta hora. que te escrevo.

vens ainda. a meio caminho do pomar.

olha para o relógio
. avança. uma horas

com os teus

olhos assimilados

pelo véu

do poente.

nenhum relógio

parado

impedirá

que cheguemos

ao mesmo tempo

à sombra

da macieira.
*




(imagem de salvador dali)




18/11/11

Dueto mudo


a folhagem do Outono. explode em ladrilhos de sombra.
os nossos rostos escurecem. tão perto estamos.
vens em ciclos de fogo. teus olhos são
lagos. que as estrelas raptam. em novelos de luz.
da esplanada onde te encontras. avistas a ondulação

esfarelada dos navios. teus cabelos. são ulmeiros.
estendem um abrigo. para o dueto
mudo. das caricías. é o mar que cheira a ausência?
ou és tu. que mudas de margem. antes de saboreares um beijo
com geleia de amoras?








*






(imagem de deviantart)

16/11/11

tarde cabisbaixa




tardava. o vento. a chuva. um céu desnorteado. aos encontrões. na
claraboia. persianas inquietas. estamos encurralados. meu amor. eu. nesta tarde cabisbaixa. colado à voz do Tom Waits. tu. sabe-se lá
onde. talvez a contar os feixes de um relâmpago. ou a sacudir. o pó dos livros. contava. contigo hoje. àquela hora. em que o tempo é mais bravio. e as folhas colam-se às vidraças. contava contigo. para calafetar janelas e portadas. ouvirmos algumas canções.
nesta clausura de Outono. deitava os teus cabelos. no tampo encerado da mesa. cabelos alongados. no reflexo. tangê-los. um a um. como. um tocador de cítara.






*



(imagem de helena margarida)


15/11/11

demorada cerimónia



com rastilhos de pólen. no vento.
a pele do teu corpo
quer um sol vizinho.
próximo. de tão alto.
o mesmo sol que naquela tarde.
de Primavera. veio ao nosso encontro.
enxugando os charcos das últimas chuvas.
os salgueiros. agora estendem a sombra
para a demorada cerimónia do olhar




*



(imagem de isselinai)


14/11/11



uvas que sangram



não me perguntes a quem pertenço. esquece a morada. imagina que nao tenho passado. deixa-me partir todos os dias. ao teu encontro. com um fio de incenso a relampejar entre os dedos. uma luz acetinada na divisa do ombro. uma varanda dourada. donde possas avistar o azul dos fiordes. lugar donde as uvas não sangram. e o enlevo nunca se gasta. se levar na boca o sabor a morango. ou a tâmaras. prometes que arrastas a névoa para o cemitério. e trazes de volta aquela covinha onde tantas vezes afundei os lábios? (o sorriso encomendava bonecas de peluche, chocolates- a maça do rosto deitada no joelho, lembras-te?).









*









(imagem de autor deconhecido)

11/11/11




os teus olhos, carinho, são tudo




se os teus olhos. viessem agora. ao encontro dos meus. não sei quantas palavras. escrevia mais. ou se. pelo contrário. como um luar que deflagra nas trevas. me paralisavam. numa sombra tímida. os teus olhos. que divagam por órbitas secretas. quando próximos. chamam-me. para dentro de um cosmos. em que o sol. a terra. o mar. se juntam. numa harmonia silenciosa. quando chegas. e os teus olhos se adiantam. tomam-me por inteiro. (sabes como se desmaia atingido pela luz de um dia imperioso?) mas não é só esse clarão. que me torna uma presa fácil. os teus olhos descrevem um longo arco. e deitados. no meu peito. dançam na pele. rastejam nos cabelos. levantam-se. tomam a palavra. são os teus olhos que primeiro. me beijam. são os teus olhos. que ao acenderem uma candeia. por dentro. me abraçam. me acariciam. são os teus olhos. semi-cerrados. que anunciam. a chegada da pequena morte feliz e entristecem. de saudade. no baço. olhar da despedida. são uma lenda. os teus olhos





*







(imagem de graça loureiro)


10/11/11



à mesa do café


à mesa do café. chega uma luz derrotada.
podia ser mais uma nuvem.
que nos separa. mas não. tudo é baço.
nesta mesa. abancam sombras.
como velhas beatas.
a tua cintura está fria.
o meu corpo.é uma coluna a que toda gente se encosta. quando
não encontra lugar. se fosse mentira. a esta hora. a mesa
do café era só nossa. e sorríamos. como sempre. antes da tua ausência. ter convidado fantasmas. para o lanche.






*

09/11/11



noite rosa


na rua deserta.

há um banco de pedra

e uma rosa.

a noite impúdica, cai

em nudez acelerada,

a noite rosa,

deita-se no banco.

sangra um tímido suor

nas mãos

que te

procuram.



*

08/11/11




as águas férreas do teu carácter



nenhum barco

parte do teu silêncio. no entanto. há um sorriso

que balança em encrespados sonhos

e que chega até mim

por uma enseada

de águas

férreas




*

03/11/11


meia-lua de água


enrolada. em mantas. no redil dos animais.

costuras a melancolia.

vem do húmus. ou dos teus braços. caídos.

o cheiro a ontem.

se em ti . meia-lua de água. arrefece.

no celeiro. fortaleces.

fértil mulher. dos campos.

vens logo de manhã.

arredondada.

sementes nos lábios.



*

31/10/11

aula de natureza




o teu corpo


é uma aula


de natureza.


ensina-me


a ouvir


a queda da chuva


o voo das folhas


a canção


do outono


à flor


da pele.








*