
17-06-2009

16-06-2009
abrir uma cartatenho a mão cansada
doem-me
as pálpebras
e meu corpo
é um porão
vazio.
nos teus olhos
onde o mar
é mais sereno
ninguém usurpa
o silêncio.
estarão neles
a salvação?
quem sabe?
ou então
nesse sorriso
que se deita
mansamente
sobre este poema
e deixa
uma silhueta
de anjo.
as palavras passam
por nós
como inúteis
turistas.
queria tanto
ir à Ópera.
encontrar-te
nas escadarias
sentir a Cármen
dilacerada
pelo amor.
correr
saltar
atravessar
o riacho.
e quando o sossego
voltasse
a dar-me
mão.
abrir uma carta
e ler o teu
sorriso
a olhar
só
para mim.
15-06-2009
poeira que ri pousavas a mão. na incrédula sombra. que em teus joelhos.
girava. enquanto. eu. preso à imobilidade das horas. lia poemas.
e olhava-te nos olhos. um deserto branco. alastrava. no teu
rosto. nenhuma palavra. acendia. um rubor. um sorriso.
pobres versos.que contra a melancólica luz da tarde nada.
podem.
fossem eles. os poemas. aquela promessa de felicidade.
que a
noite. elabora. em amados enganos. de ocasião. e tudo era
desigual. a poesia. amealhava. glórias e etílicos arrebatamentos.
mas o poeta. que não imagina. a que horas o leitor. canta. e diz
em alta voz. seus versos. intemporais. um dia saberá. que à
tarde. o poema deve ser. conservado. higiénicamente.
porque. lida ao vento. do entardecer.
a poesia. é poeira que ri.
*
(imagem de andrea b)
11-06-2009
da carícia ausenteos nossos
beijos.
*
(imagem de mariah)
28-05-2009
procura da poesia15-05-2009
vaga friano entanto
11-05-2009
acostumada
na sombra
de um corpo
que não é o seu
oculta a túnica branca
e engendra
armadilhas
que explodem
na falsa inocência dos predadores.
é mulher
ou esfinge?
pássaro branco
em fuga?
há horas
em que os sentimentos
incomodam
e nem a quieta perfeição
das rosas
timbra
a pele dos amantes.
quem já se gastou
em amores
funestos
expõe a crueza
do prazer
no corpo a corpo
sem memória
nem glória.
o sexo na vitrina
torna mais suportável
os dias.
na ausência
de um amor
o sexo
paginado
escancarado
fustiga
ternuras
e brisas
em lances
de bocas
e membros
em fúria.
*
(imagem de deviantart)
05-05-2009
incógnita maresiaincógnita maresia
que entras desprevenida
pelos os anéis do forte.
és preguiça de mar
ou promessa de vida?
vens deitada
num estilete de coral
e o teu cheiro
cola-se ao corpo
do solitário navegante.
abraça-me
amada maresia
cheira-me com o teu cheiro
beija-me
sacia-me
com tua roda de inebriantes
fragrâncias.
no areal
as gaivotas voam
rente aos meus olhos
e tu maresia
continuas incógnita.
anda.
despe esse manto salgado
onde te escondes
salta os penedos
em que danças
vem.
destrona-me
na duna mais próxima do mar
e ingressa na minha pele
no meu sexo.
sou o teu amante
maresia
que se estira na margem
o último
dos famintos.
*
(imagem autor desconhecido)
29-04-2009
eras a página 23. deitada em caracteres romanos. gosto de andar nua. em letras antigas. confessaste. no primeiro parágrafo.
antes ainda de eu concluir. o enredo. foi então. que no branco da página. te despiste. as tuas ancas. eram acentos. circunflexo.
e os teus mamilos. chapéus de mandarim. passeando pelas margens. de um rio mandrião. apagavas frases. com lenços da índia.
e eu enxugava o meu suor. à tua pele. seriam de papiro os teus ombros? pedi-te que descesses. queria que perfumasses a página.
detesto o cheiro a papel pardo. o teu corpo. era toda a página 23. os teus flancos não era um mata-borrão. nem pontos finais. os teus poros.
olhavas-me. languidamente. do alto das interrogações. e eu beijava-te. em sucessivos travessões. nomeei-te guia. da 23.
e teimei em não sair daquela página. sabia que ao permaneceres. ali. deitada. como os teus olhos em itálico. e os lábios em requebro
rosáceo. o romance que naquela altura. não passava de um ligeiro esgar. estava concluído. bastava só. esticar-me. nos teus cabelos.
e chamar 23. ao nosso primeiro orgasmo. escrito em letras romanas.
*
(imagem de erlandpil)
23-04-2009
sorriso nu*
19-04-2009
noivar13-04-2009
bizarra flor02-04-2009
caminha26-03-2009

debaixo de lençóis magoados. e travesseiros doídos. um corpo sem domínio de si. resvalando pela escuridão.
como trapos entre os rochedos. o que dói num corpo assim tão desorientado?
uma ferida que não se vê? uma dor que não mente? um abismo de sombras e tonturas que não se detém?
corpo que se queixa e não chora. corpo parado. corpo impotente. corpo falido.
eram lágrimas. só podiam ser lágrimas.
o que o corpo pedia. nessas noites.
que nunca mais acabam.
25-03-2009

Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo.
(Fernando Pessoa)
21-03-2009

Foi para ti que criei as rosas
Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei ás romãs a cor do lume.
Poema de Eugénio de Andrade
*
19-03-2009

caminha desprevenido
18-03-2009

16-03-2009

fogo itálico
regressa. não tenhas medo. o chão está atapetado de camélias. e os poentes são demorados. podes chegar. às avessas. prolongando o tempo de cada carícia. volta. o corredor está encerado. pelo rasto do teu último olhar. e à janela os pássaros. amotinam-se. vem. o cheiro do teu corpo. encaderneio-o. para o diada festa. quero abrir cada grito teu. com o fogo escrito. em itálico. na pele.
*
(imagem de mariah)
em prosa serena*
13-03-2009
diz-me, cantando12-03-2009

tempo.
11-03-2009
aventura10-03-2009
lendaontem fui de remos. até à foz. e vi-te descalça. tocada pelo vento breve. medias a sincronia das ondas. enquanto eu desmantelava a solidão. em meadas de feno. pelas intactas margens. passavam veleiros. e uma lenda. contada pelos pescadores. fala sobre a pesada mágoa. que o nevoeiro adensa. em dias. de mar cavado. dizem os pescadores. que as mulheres que ali chegam por esta altura. transformam-se em névoa. vestem túnicas brancas. e andam descalças. como tu. conversam com o mar. entendem o dialecto das gaivotas. e quando anoitece. desaparecem. diz a lenda. que essas mulheres. sepultam no mar. vestígios. de incuráveis amores. e aguardam que do labor das marés. nasçam auroras esperançosas.talvez eu nunca chegue a entender. essa tua oração. nem o mistério do recolhimento. talvez. por isso. quisesse ser nuvem. salvadora. no momento. em que já só és névoa.
09-03-2009

06-03-2009
à mesa do café. chega uma luz derrotada. pela dor viril da ausência. podia ser mais uma nuvem. remota vaga de chumbo. que nos separa. ou um súbito desnivelamento do sol. mas não. tudo é baço. nos meus olhos. vidrado negrume de obscuras mãos. parasitas. nesta mesa. sentam-se fantasmas. moem o pensamento. como velhas beatas. estás à minha frente. sorriso abraçado. a horas em que a felicidade. não se repartia. e o desejo era uma espiral de fogo. agora. mesmo junto a mim. a tua sombra é fria. e o meu corpo. um varão a que toda gente se encosta. quando não encontra lugar. podia ser mentira. e a esta hora. a mesa do café era só nossa. e sorríamos. como sempre. antes da ausência. ter convidado fantasmas. para o lanche.
*
(imagem de erlandpil)
05-03-2009

nos teus olhos.
em folhetos turísticos.
04-03-2009
não partas não partas. hoje. depois de morrer .esqueci-me que tínhamos combinado adormecer juntos. e como ainda não te vi. a morte concedeu-me. um pouco mais de vida.
01-03-2009

25-02-2009




