12/02/12



página vinte e cinco


também acredito. que a prosa é serena. como os teus lábios.
as palavras chamam-me. com a mesma lentidão. das tardes de
Setembro. em que passas devagar. pela orla. a prosa. conta-nos. em longos capítulos. a impossibilidade do nosso encontro. leio-te ao longe. invento-te noutro país. e o corpo de mulher que anda pela praia deserta. até pode ser o teu. mas é na ficção. que ele habita. os romances escrevem-se. para dar nome. ao que não alcançamos se agora te chamasse. neste preciso momento. em que na página vinte e cinco. a mulher se lamenta. tu vinhas ter comigo. entre dois pontos. beijavas-me. isso só acontece nos romances. na prosa. serena. como lhe chamas. se eu te
lesse em poesia. cada verso que te escrevesse. morria nos teus olhos. e em silêncio te despedias. estás sempre mais longe. no poema.




*





(imagem de deviantart)

11/02/12



tolhidos



tardes em que um sol
desvairado enfrenta o medo.
tardes raras em que resistimos
ao terror.
uns cabelos que tombam sobre a curva
de um ombro a banhar-se no regato.
um sorriso desprevenido na rua deserta.
um rosto intacto isento que nos sacode.
ou o sonho daquela criança que rabisca
futuros alados na pedra azul.
e nós tolhidos
pelos pulsos
de um calor desmedido.






*




10/02/12



acolhe-me



acolhe-me

amor

na colina

breve

do teu

ventre

beija-me

com a palavra

desenhada

sonho

inesperado

nos teus

lábios

inscrito.

acolhe-me

amor

na

escala

exacta

melódica

inflamada

dos

teus

olhos

outonais

és

trigo

e

aveia

luz

dourada

no

silêncio

incrédulo

da

noite.





*





(imagem de haleh bryan)

07/02/12

Câmara lenta



a sombra em passo lento.
desliza no soalho.
uma vela. obediente.
orienta. a intima procissão.
a sombra. absorve o silêncio.
adensa a atmosfera.
roçagares silenciosos.
até ao desmoronamento no linho.
dentro da sombra. estilhaçada.
um corpo irrompe. vagaroso.
os caracteres do quimono
iluminam-se.
há vapores. cheira
a incenso.
morre
a vela.

olhos acendrados.
rubores
lábios
exaustos.




*





(imagem de metin demiralay)

05/02/12



a rendiçao do vento


eis-me aqui. entre a rendição do vento. e a luz benevolente. que no terraço. desvenda a intimidade da noite.
horas antes. assisti. a um amanhecer sombrio. como
um olhar turvo. no fundo de uma garrafa.
não sei explicar. o modo como os teus olhos. presos. numa
página imóvel. confessam dores antigas.
silêncios fuzilados de lágrimas. essa aurora destroçada. donde me vês.
indiferente ao milhafre que sobrevoa os telhados.
há. uma inaptidão minha. para compreender. onde mora em ti. a criança que leva um sorriso feliz. ao jardim das traseiras.
fragmentos de uma canção. prolongados relentos. ávidos de ternura.
uma vez. respirava eu uma noite perfumada de tílias. imaginei-nos
embaraçados. tensos.
na areia tépida de uma praia. deserta.
segredei-te: aproveita a rendição do vento.
vem. matar-me a sede.





*






(imagem de desconhecido)

02/02/12

frágil



os teus olhos. despertaram a tarde. para uma luz sagrada. não sei. se a poesia. ou as palavras. eram mais sólidas. comparadas.com o assombro do teu olhar. oiço o cântico dos teus olhos. e alcanço-os. enquanto dormes.
abrimos um livro. junto à janela. donde avistávamos o leito escasso do rio. lembras-te amor? a janela permanece escancarada. os nossos corpos esfriam. leio agora nas lágrimas que reprimes um adeus silencioso. igual ao dos soldados que partem para a guerra.
pedes-me que feche a janela.
os teus olhos.já tocados pelo raio avermelhado da despedida. embarcam. no corredor. uma luz branca fica a tremer:
"cuidado. frágil."




*

29/01/12

ave desligada do vento


de passagem,
és um navio que sossega.
ave desligada do vento.
vela tombadana
aprendizagem do mar.


de passagem,
és olhar que descansa
corpo escorado em searas
inclinadas.


de passagem,
és tinta da palavra
que não escreves.
verso que adormece
em longos silêncios.


de passagem,
és rosto demorado
na esplanada distante
sombra vaga
que apetece.


de passagem,
és caminho vedado
no sorriso
descoberto.


de passagem,
só de passagem
és sol
e prece
vagar
que permanece.


*



(imagem de metin demiralay)

25/01/12

fortalezas arruinadas


as pálidas nuvens. que nos contrafortes. interrompem aplenitude. do teu olhar. são fortalezas arruinadas. por este Janeiro insolente. triste. o luar resiste. como resistem os barcos. em tantas incertas marés. melodiosos. são os teus olhos. entre olhares desesperados pergunta-me. porque te espero. nas ondas que agonizam na praia. como soldados exaustos. pergunta-me porque espero eu: uma barra de sombra. nos teus cabelos. uma concha de espuma no teu ventre. uma trémula luz. no teu sorriso. nesta esbatida claridade. já nem a poesia nos salva.



*
(imagem de autor desconnhecido)

23/01/12

dilúvio

 
não sei
do grito
que deixaste
ecoar
pela casa.
nem das palavras
à deriva
na ínsula do teu
corpo.
 
nos teus olhos
continua
o dilúvio.
*

22/01/12

noiva do luar



porque me dói um amor antigo estou noiva do luar. era escusado. sabes como as tuas cartas ainda forram. a arca do enxoval. as traças nem se atrevem. entre nós o dia e a noite eram um só tronco. o céu um remendo de azul. o luar um contorno vago. o luar mesmo. dardejava nos teus pulsos. nunca havia escuridão. depois. depois. as tuas palavras abandonaram-me. as tuas mãos emigraram. e o espelho já não suporta o meu rosto. a noite é um punhal. vou de núpcias com a lenda. "para a lua vão todos os amantes".





(inspirado "Em noite de luar" de Raul Brandão) )

19/01/12

pendulares afagos


não sei se é vento. brisa. arfar. pulsação do entardecer. sinto-a como uma carícia. aquela dança do ar. que nos toca a face. quando as tardes. correm devagar. para o miolo da noite. esse ventinho. que passa. pelas esplanadas. em intermitentes lufadas. acaricia os ombros. e larga. um cheiro a flores. como um diligente carteiro. que distribui. aromas à mesa. um sobrescrito perfumado. uma carta. para se ler. vagarosamente. enquanto as árvores. nos abrigam. em pendulares afagos. nos teus olhos. respirei. um dia. a mesma atmosfera. táctil. esse vento doce.


*

17/01/12



velhos alquimistas



 
deste-me um telão. e o cheiro a tinta. eu escrevi em sangue. o que
as palavras antigas. não conheciam. deste-me uma fuga de bach. as
valquírias. desci ao mais fundo.
deste-me cometas. infindos luares.
verbos que atiçam.
deste-me um corpo sem espartilhos.
a inocência. em troca de quase nada: um poema
escrito a desoras. uma metáfora inventada em nocturna
melancolia. deste-me pão quente. ervas. chã da índia. e scones.
meus punhos morriam de fome.
na tela de velhos alquimistas.









*

16/01/12

temperatura



a árvore

e a sombra

colhem frutos

em redor dos teus olhos.

as raízes

os ventos

trazem o cheiro

a canela

temperado

nas tuas coxas.



*




(imagem de haleh bryan)

13/01/12

batente azul


 
és tu. batente azul. na baça luz do amanhecer. tu que
trabalhas.incessantemente. as pedras dos sonhos. tu que
escolhes o mar. como grande aliado da leitura. e lembras a
cada passo a sentença do poeta. "O amor vive pelas
palavras e morre com os actos". tu. que és o meu
sobressalto. e a minha insónia.
tu. sorriso descalço no céu limpo da poesia.
que me abandona. na dobra de uma página em branco.




*




(imagem de barbara cole)

10/01/12


vi a tua infância


vi a tua infância sentada à mesa. era uma infância
vestida de branco. com olhos de um rio. sereno.

brincava.entre os arbustos e
sombras..

ia e vinha. nos jogos de cabra cega. estendendo uma
braçada de amores perfeitos. e as tuas mãos.
sempre cheias de dádivas.

vi.a tua infância nos pulsos firmes
do amanhecer. e o sorriso de menina que renasce
em cada regresso.

vi. como o teu olhar. perdoa. desencontros e traições.
vi a tua infância. florescer em campos de cinza.

passados tantos anos. a tua infância.
vem ao meu encontro.

com o mesmo vestido branco.
a mesma inocência nervosa.
do primeiro banho no rio.







*




(imagem de haleh bryan)

07/01/12

rio indolente
 


cheiras a lavanda. as tuas mãos embarcam em caravelas amarradas ao
calor do corpo. no meu peito. os teus lábios. desenham curvas de um rio. indolente. da torre do farol. há um olhar que vigia os mares.
vento constante. o teu rosto. desembarca.
finalmente.





*






06/01/12

nenhum barco



escrevo

para o porto

de mar

em que te exilas

nenhum barco

parte do silêncio.






*









02/01/12

equação


é creme ou água

o que dois corpos derramam

quando as palavras

já não acodem

os que em mergulhos

demorados

nadam

aflitos

em lagoas de pano?







*






(imagem de haleh bryan)

01/01/12

oratória do novo ano


enrolar algodão
em laços de neblina
na praia do norte.

ao leme
das tuas mãos
o mar amansa
os ventos.

do novo ano

há um navio
sossegado nos
teus olhos.

suaves clarões
que silenciam
o estrondo
dos relâmpagos.

do novo ano

nos teus lábios.
há um cálice de maresia.
contra o medo
desistência
e morte.


do novo ano.

acolhe-me
sem nome
descalço
na desesperada
oratória

do novo ano.






*


31/12/11

rádio taxi do fim do ano


a canção do rádio taxi. ou aquele fervoroso abraço. à saída do
comboio. tornava o Inverno mais suportável. o silêncio. interrompido pela voz roufenha. do homem da estação. que anunciava as últimas ligações. o vento que desarmava. os cabelos. ou a
chuva impenitente. que os empurrava. para carruagens abandonadas... nesse dia. o olhar de ambos. ardia. entre carris medonhos. a estação sem gente. o relógio parado. nas seis
da tarde. o tempo. infinito. de uma viagem. que começou. nas mãos.
terminou nos lábios. e o frio. já de partida.




*



29/12/11

interrogar a natureza



digo-te de mãos transtornadas. o rosto a latejar:
há outra pele. dentro da tua pele. uma rua de luz
mínima. onde o meu corpo frio. reconhece os limites.
de um lugar ameno. quanto mais longe estás. mais perto me sinto
desse olhar com porte de sombra inquieta. escrevo-te. porque as
palavras. mordem a névoa espessa. lembra-te daqueles instantes. em que juntos. construímos. serenamente. uma reserva de ar puro. as tuas mãos . reflectidas no corpo liso do rio. horas breves. que
condensavam. a essência do eterno. a chuva voltou. e com
ela. regressaram. as sirenes da aurora. que imaginamos. em
manhâs. de alegria instintiva. "as coisas atraem-se como
os planetas".
quando a chuva cessar. hei-de interrogar a natureza: que
nome se dá. a dois corpos. a tremer. debaixo
de um xaile?






*






28/12/11

língua





senta-te aqui a meu lado. estudo a morte da palavra.
enquanto os teus lábios elaboram uma resposta...
noutra língua.
a nossa.
entaramelada
.






*


















27/12/11



luz saqueada


não suporto os olhos.
longe de ti.

doem-me as têmporas

as aves atravessam
cansadas
a luz que os peixes saquearam.

se ao menos me dissesses
que estás mais perto
por seres corpo e pele
do poema.





*





25/12/11

odor do cais


não é o amor das canções. nem o odor do cais. o tiroteio da chuva sobre o mar. que nos leva ao desencanto. é a ressurreição do lume num corpo desistente. o vento que rouba o calor das nossa bocas. a fria insónia. que nos empurra para lugares onde a memória. tem medo de existir.




*




(imagem de sweetcharade)

24/12/11

amolador do Natal







neste Natal era diferente.



nem tudo o que o amolador pedia. com o seu harmónio de
beiços. eram facas. sem gume. guarda-chuvas. sem varetas.
garfos. torcidos. neste tempo. em que a menina da aldeia
prega. rascunhos de sonhos impossíveis. em paredes
vazias. o homem da geringonça. pedia que ela
viesse à janela. com o surrado véu da avó. para
aguçar-lhe o sorriso. ele sabia. como as mãos da menina penetravam
o volume do pó. em busca de uma dádiva. mas nunca apareceu à janela. só o olhar e o harmónio do amolador. resistiam.
mesmo os candeeiros de rua. estavam apagados. este ano. o vulto da menina. permanecia emboscado. às escuras. entre as cortinas. o amolador. arrumou a tralha. e desistiu do ofício. neste Natal.






*






(imagem de chpsauce)

23/12/11



querida imaginação que ainda não pagas impostos


no doloroso advento. da incerteza. "é a prosa da vida que faz falta a muita gente". sentença de escritor. roubam-te a esperança. o fundo olhar da paixão. chegam-se a ti com um fósforo. e querem levar tudo. a troco de um esgar. cotado em bolsa. querem vampirizar o ar que respiras. cuida. meu amor. cuida da prosa. do vagaroso espreguiçar da palavra. leva-a. no cesto da fruta. antes
que apodreça na casca endividada. querem que os teus olhos. calem. as fogueiras. a alegria. o sol. que te venderam. como só teu. e agora. cobram juros. porque existe. porque sim. é preciso cortar em tudo. dizem. porque o sol também é um assalariado.
e a luz que lhe assiste. (à excepção dos senhores que lhe sugaram a energia. toda. renovável). tem custos. umas manhâs às escuras. ou. uns poentes apagados. consolidam as finanças. sabes amor. estamos na boca da turbina. de assépticos. predadores. cuida amor. guarda a palavra. semeia-a no ventre. inventa-a. na dança silenciosa
dos teus lábios. a palavra. em prosa serena. que ainda.
não paga IVA. se já te arrancaram o fôlego. para pagar os juros da divída. salva. a imaginação. que (ainda) não é tributada.




*





(imagem autor desconhecido)

21/12/11

safra



da safra da tarde
meus lábios
saboreiam
ainda os últimos
cristais.
a fome saciada
nos teus seios
empertigados.
busco agora
o perfume destilado
os sinais diluídos
na tépida
nuca.

os músculos doridos
quando fumo
o último cigarro.





*




(imagem autor desconhecido)

20/12/11

rua da evasão



da próxima vez. que a porta abrir. vou descer ao lago sombrio. das minhas memórias. e à luz branda do anoitecer. conto: regressávamos juntos. pelo caminho coberto de ulmeiros. ela. recusava ser envolvida. pelo odor de uma neblina cor-de-rosa. conhecia apenas. a luz exacta dos dias iguais. afastava vozes. que a distraísse. visões assombrosas. de amantes. que sobem abraçados o rio. nunca sentiu vontade de ser beijada. entre ramos de salgueiros. no branco luar de Agosto. ele. sonhava ser amado debaixo de um céu enxuto. tinha muitas cartas inacabadas. em campos estrumados de orvalho. sentia o aguilhão. chamou-a para a intimidade do quarto. e num atrapalhado sermão. falou-lhe. da origem dos frutos. do voo desatinado dos pássaros. da luz amordaçada. na rua da evasão.






*





(imagens dautor desconhecido )

18/12/11

luz de pano




não passa de uma luz

de pano

branco.

um céu inválido

cortinas de sombra

soterram a cidade.

a marcar o território

com a sua caligrafia

de mulher:

este tempo

de húmidas

cabeleiras.

horas

em que regressamos

mais cedo

ao quarto

estreito.

a paisagem

lá fora

leveda

tristeza.

o frio espesso

volta

pelas

estrias

do vento.


ouve-se

de novo

o insuportável ranger

do soalho.






*






12/12/11





carta de inverno



até onde posso ir. meu amor. neste deserto frio. em que me deixaste. a soluçar. para o branco chumbo das nuvens? a chuva parou. logo após a tua despedida. e nem houve tempo. para eu aprovisionar. um cântaro de água dos teus olhos. a súbita carga. de sol. que se abateu. sobre os meus braços. impediu também que deslocasse. para a sombra. o vapor de água. que se avolumou. nas paredes. à medida. que os nossos lábios. iam enrolando. no escuro. suaves teias. consolado. pelo teu ameno. encolher de ombros. não me atrevi. a procurar-te. nem a registar. o número de polícia da tua porta. tínhamos combinado. vagamente. trocar cartas. sem endereço. para que as nossas palavras não fossem violadas. eu. continuo à janela. assistindo. ao vai e vem rotineiro. de asseados automóveis. queimando combustível. em passeios tristes. o sol de inverno. já anda por aí a mendigar neve. pelos montes. e antes que tudo se torne indistinto. no horizonte. peço-te que me envies uma lágrima. em carta registada.






*