24/02/12

Amor em tempos de crise


arrasto os olhos. pelas ramagens do amanhecer. não sei. a que horas o meu corpo. se deitará. ouço o mar. a carrinha do pão quente. o roncar longínquo dos navios. já foste à cama? ou ainda bebes os últimos goles? eu embriago-me desta forma. menos prazenteira: palavras em vez de conhaque. ontem. a noite. estava fria. as ruas quase desertas. e antes que me enredasse em profecias tontas. passei horas a escrever frases sem nexo. nos embaciados vidros. dos que fogem da crise. e se entregam desvairadamente ao amor.
em carros roubados.






*



21/02/12

rios paralelos



o tempo masculino: hora veloz a metralhar nos telhados. na mulher a contagem é outra. luzerna e chuva miúda em pele de alabastro. ela sabe que o fogo esbanjador. atrapalha. o tempo da cosedura. por isso espera. sabe que um dia sentirá o trepar do arado. pelas arestas do corpo. mas primeiro ronda. tempestade oculta no arvoredo. imagina. divaga. colecciona odores. datas. entrelinhas . o tempo do homem habita num cego furacão. queima intervalos. evita os atalhos. a mulher. pelo contrário. adora trilhos. caminhos quase. acumula luares e amanheceres. derrama ternura pelos vasos da memória. as lágrimas da mulher. o suor do homem. dois rios paralelos.



*




(imagem de alicia brizzio)

19/02/12

horas insensatas




horas insensatas. em que as lágrimas.

o tédio. pedem eclipse. morte.

o imprevisto. adormece nos relógios. é nessa hora. amor.

que irrompes. como chuva torrencial.

nos meus olhos. há um tique taque. que enlouquece

o teu rosto ausente. és um espectro?

adivinho-te em contornos vagos. só neblina.

no tempo. em que ouvia a tua voz.

os nossos segredos. acalentavam. um pouco mais de luz.

trilho aberto. na solidão dos montes.

o medo. é o nosso único aliado. como sepultar a saudade?

a Primavera está ainda na infância.

nem um raio desvenda.

o teu corpo.





*


18/02/12

pele sépia



naquele poente. o tempo resignou-se.
ao sépia das tuas mãos.
não era sol baixo
começo de noite. triunfante.
era a palavra abandonada.
o nenhures do olhar.
nem tu. nem eu.
sabíamos. que no fim de uma frase.
principia a desistência do verbo.
os teus lábios ardiam.
nos meus olhos.
naquele poente.
dactilografado
ao longe
em pele sépia.





*





(imagem de allposters.com)

16/02/12

desgoverno


anda no ar um deus oculto

mão desgovernada

invisível

que no corpo

deixa seu ferrete

delicado.




*







(imagem de annick bouvattier)

15/02/12

meadas


cosia
meadas de feno
onde agora
me deito.

oiço
o seu lento
tricotar
no longo
de leito.

o que o
almocreve
leva
às guardas
do vento
é um coração
moído
silêncio
esperas
memória
de uma canção
que exaspera.

pequenos estilhaços

segredos

nas malhas
do embaraço
cose
pesadelos
ruídos
mal me queres

por
uma hora de fusão
de tal
zelo

feliz
degredo

resiste
ao
estardalhaço.






*


14/02/12



prescrição médica


confesso: fui eu que te liguei . só para ouvir a
tua voz. como quem confisca um búzio. e põe-se à escuta.

não. não foi nenhuma
cilada. liguei-te. por recomendação médica.

só que a tua voz. eu não sabia.
tem efeitos. secundários.
está tudo registado: tá là. quem fala?
e não sei quantos badamerda! antes de desligares.
a tua voz
a moer e remoer
em mim.

badamerda o doutor. que não se cansa.
de insistir na mesma receita:
a tua voz
em doses de cavalo.
badamerda doutor
e logo hoje
dia dos namorados!



*




dia de São Valentim







*








13/02/12

anunciada falência



já não voltaremos espreitar o rio.
da janela onde agora as tuas
mãos apagam diariamente vestígios de um passado.
construído às escondidas.
já não arriscas.
os teus sonhos
os meus segredos
o país

entramos todos
em falência.

a lua permanece
escancarada
os pássaros



(os poucos que nos escoltavam. dos
macios tendões das árvores)
desertaram.
no ar quente do teu rosto. o
esquecimento estende
agora
gélidas mandíbulas.

nenhum
inesperado rubor.
perturba o teu ar
dissimulado

há umas vagas
inscrições
neste chão
que faliu
antes
de ser futuro.

chão outrora
pavimentado
de flores
e cheiros
que nos embriagavam.

tudo o que dizemos
um ao outro
é pólvora seca.
e não fogo
atiçado
como dantes.

a minha boca. sabe a cinza.






*





12/02/12



página vinte e cinco


também acredito. que a prosa é serena. como os teus lábios.
as palavras chamam-me. com a mesma lentidão. das tardes de
Setembro. em que passas devagar. pela orla. a prosa. conta-nos. em longos capítulos. a impossibilidade do nosso encontro. leio-te ao longe. invento-te noutro país. e o corpo de mulher que anda pela praia deserta. até pode ser o teu. mas é na ficção. que ele habita. os romances escrevem-se. para dar nome. ao que não alcançamos se agora te chamasse. neste preciso momento. em que na página vinte e cinco. a mulher se lamenta. tu vinhas ter comigo. entre dois pontos. beijavas-me. isso só acontece nos romances. na prosa. serena. como lhe chamas. se eu te
lesse em poesia. cada verso que te escrevesse. morria nos teus olhos. e em silêncio te despedias. estás sempre mais longe. no poema.




*





(imagem de deviantart)

11/02/12



tolhidos



tardes em que um sol
desvairado enfrenta o medo.
tardes raras em que resistimos
ao terror.
uns cabelos que tombam sobre a curva
de um ombro a banhar-se no regato.
um sorriso desprevenido na rua deserta.
um rosto intacto isento que nos sacode.
ou o sonho daquela criança que rabisca
futuros alados na pedra azul.
e nós tolhidos
pelos pulsos
de um calor desmedido.






*




10/02/12



acolhe-me



acolhe-me

amor

na colina

breve

do teu

ventre

beija-me

com a palavra

desenhada

sonho

inesperado

nos teus

lábios

inscrito.

acolhe-me

amor

na

escala

exacta

melódica

inflamada

dos

teus

olhos

outonais

és

trigo

e

aveia

luz

dourada

no

silêncio

incrédulo

da

noite.





*





(imagem de haleh bryan)

07/02/12

Câmara lenta



a sombra em passo lento.
desliza no soalho.
uma vela. obediente.
orienta. a intima procissão.
a sombra. absorve o silêncio.
adensa a atmosfera.
roçagares silenciosos.
até ao desmoronamento no linho.
dentro da sombra. estilhaçada.
um corpo irrompe. vagaroso.
os caracteres do quimono
iluminam-se.
há vapores. cheira
a incenso.
morre
a vela.

olhos acendrados.
rubores
lábios
exaustos.




*





(imagem de metin demiralay)

05/02/12



a rendiçao do vento


eis-me aqui. entre a rendição do vento. e a luz benevolente. que no terraço. desvenda a intimidade da noite.
horas antes. assisti. a um amanhecer sombrio. como
um olhar turvo. no fundo de uma garrafa.
não sei explicar. o modo como os teus olhos. presos. numa
página imóvel. confessam dores antigas.
silêncios fuzilados de lágrimas. essa aurora destroçada. donde me vês.
indiferente ao milhafre que sobrevoa os telhados.
há. uma inaptidão minha. para compreender. onde mora em ti. a criança que leva um sorriso feliz. ao jardim das traseiras.
fragmentos de uma canção. prolongados relentos. ávidos de ternura.
uma vez. respirava eu uma noite perfumada de tílias. imaginei-nos
embaraçados. tensos.
na areia tépida de uma praia. deserta.
segredei-te: aproveita a rendição do vento.
vem. matar-me a sede.





*






(imagem de desconhecido)

02/02/12

frágil



os teus olhos. despertaram a tarde. para uma luz sagrada. não sei. se a poesia. ou as palavras. eram mais sólidas. comparadas.com o assombro do teu olhar. oiço o cântico dos teus olhos. e alcanço-os. enquanto dormes.
abrimos um livro. junto à janela. donde avistávamos o leito escasso do rio. lembras-te amor? a janela permanece escancarada. os nossos corpos esfriam. leio agora nas lágrimas que reprimes um adeus silencioso. igual ao dos soldados que partem para a guerra.
pedes-me que feche a janela.
os teus olhos.já tocados pelo raio avermelhado da despedida. embarcam. no corredor. uma luz branca fica a tremer:
"cuidado. frágil."




*

29/01/12

ave desligada do vento


de passagem,
és um navio que sossega.
ave desligada do vento.
vela tombadana
aprendizagem do mar.


de passagem,
és olhar que descansa
corpo escorado em searas
inclinadas.


de passagem,
és tinta da palavra
que não escreves.
verso que adormece
em longos silêncios.


de passagem,
és rosto demorado
na esplanada distante
sombra vaga
que apetece.


de passagem,
és caminho vedado
no sorriso
descoberto.


de passagem,
só de passagem
és sol
e prece
vagar
que permanece.


*



(imagem de metin demiralay)

25/01/12

fortalezas arruinadas


as pálidas nuvens. que nos contrafortes. interrompem aplenitude. do teu olhar. são fortalezas arruinadas. por este Janeiro insolente. triste. o luar resiste. como resistem os barcos. em tantas incertas marés. melodiosos. são os teus olhos. entre olhares desesperados pergunta-me. porque te espero. nas ondas que agonizam na praia. como soldados exaustos. pergunta-me porque espero eu: uma barra de sombra. nos teus cabelos. uma concha de espuma no teu ventre. uma trémula luz. no teu sorriso. nesta esbatida claridade. já nem a poesia nos salva.



*
(imagem de autor desconnhecido)

23/01/12

dilúvio

 
não sei
do grito
que deixaste
ecoar
pela casa.
nem das palavras
à deriva
na ínsula do teu
corpo.
 
nos teus olhos
continua
o dilúvio.
*

22/01/12

noiva do luar



porque me dói um amor antigo estou noiva do luar. era escusado. sabes como as tuas cartas ainda forram. a arca do enxoval. as traças nem se atrevem. entre nós o dia e a noite eram um só tronco. o céu um remendo de azul. o luar um contorno vago. o luar mesmo. dardejava nos teus pulsos. nunca havia escuridão. depois. depois. as tuas palavras abandonaram-me. as tuas mãos emigraram. e o espelho já não suporta o meu rosto. a noite é um punhal. vou de núpcias com a lenda. "para a lua vão todos os amantes".





(inspirado "Em noite de luar" de Raul Brandão) )

19/01/12

pendulares afagos


não sei se é vento. brisa. arfar. pulsação do entardecer. sinto-a como uma carícia. aquela dança do ar. que nos toca a face. quando as tardes. correm devagar. para o miolo da noite. esse ventinho. que passa. pelas esplanadas. em intermitentes lufadas. acaricia os ombros. e larga. um cheiro a flores. como um diligente carteiro. que distribui. aromas à mesa. um sobrescrito perfumado. uma carta. para se ler. vagarosamente. enquanto as árvores. nos abrigam. em pendulares afagos. nos teus olhos. respirei. um dia. a mesma atmosfera. táctil. esse vento doce.


*

17/01/12



velhos alquimistas



 
deste-me um telão. e o cheiro a tinta. eu escrevi em sangue. o que
as palavras antigas. não conheciam. deste-me uma fuga de bach. as
valquírias. desci ao mais fundo.
deste-me cometas. infindos luares.
verbos que atiçam.
deste-me um corpo sem espartilhos.
a inocência. em troca de quase nada: um poema
escrito a desoras. uma metáfora inventada em nocturna
melancolia. deste-me pão quente. ervas. chã da índia. e scones.
meus punhos morriam de fome.
na tela de velhos alquimistas.









*

16/01/12

temperatura



a árvore

e a sombra

colhem frutos

em redor dos teus olhos.

as raízes

os ventos

trazem o cheiro

a canela

temperado

nas tuas coxas.



*




(imagem de haleh bryan)

13/01/12

batente azul


 
és tu. batente azul. na baça luz do amanhecer. tu que
trabalhas.incessantemente. as pedras dos sonhos. tu que
escolhes o mar. como grande aliado da leitura. e lembras a
cada passo a sentença do poeta. "O amor vive pelas
palavras e morre com os actos". tu. que és o meu
sobressalto. e a minha insónia.
tu. sorriso descalço no céu limpo da poesia.
que me abandona. na dobra de uma página em branco.




*




(imagem de barbara cole)

10/01/12


vi a tua infância


vi a tua infância sentada à mesa. era uma infância
vestida de branco. com olhos de um rio. sereno.

brincava.entre os arbustos e
sombras..

ia e vinha. nos jogos de cabra cega. estendendo uma
braçada de amores perfeitos. e as tuas mãos.
sempre cheias de dádivas.

vi.a tua infância nos pulsos firmes
do amanhecer. e o sorriso de menina que renasce
em cada regresso.

vi. como o teu olhar. perdoa. desencontros e traições.
vi a tua infância. florescer em campos de cinza.

passados tantos anos. a tua infância.
vem ao meu encontro.

com o mesmo vestido branco.
a mesma inocência nervosa.
do primeiro banho no rio.







*




(imagem de haleh bryan)

07/01/12

rio indolente
 


cheiras a lavanda. as tuas mãos embarcam em caravelas amarradas ao
calor do corpo. no meu peito. os teus lábios. desenham curvas de um rio. indolente. da torre do farol. há um olhar que vigia os mares.
vento constante. o teu rosto. desembarca.
finalmente.





*






06/01/12

nenhum barco



escrevo

para o porto

de mar

em que te exilas

nenhum barco

parte do silêncio.






*









02/01/12

equação


é creme ou água

o que dois corpos derramam

quando as palavras

já não acodem

os que em mergulhos

demorados

nadam

aflitos

em lagoas de pano?







*






(imagem de haleh bryan)

01/01/12

oratória do novo ano


enrolar algodão
em laços de neblina
na praia do norte.

ao leme
das tuas mãos
o mar amansa
os ventos.

do novo ano

há um navio
sossegado nos
teus olhos.

suaves clarões
que silenciam
o estrondo
dos relâmpagos.

do novo ano

nos teus lábios.
há um cálice de maresia.
contra o medo
desistência
e morte.


do novo ano.

acolhe-me
sem nome
descalço
na desesperada
oratória

do novo ano.






*


31/12/11

rádio taxi do fim do ano


a canção do rádio taxi. ou aquele fervoroso abraço. à saída do
comboio. tornava o Inverno mais suportável. o silêncio. interrompido pela voz roufenha. do homem da estação. que anunciava as últimas ligações. o vento que desarmava. os cabelos. ou a
chuva impenitente. que os empurrava. para carruagens abandonadas... nesse dia. o olhar de ambos. ardia. entre carris medonhos. a estação sem gente. o relógio parado. nas seis
da tarde. o tempo. infinito. de uma viagem. que começou. nas mãos.
terminou nos lábios. e o frio. já de partida.




*