05/02/09

migalha

migalhas
são feixes
de rubores
intensos.
e não restos
detritos
sobras.
felizes dos que
mordiscam uma só
migalha
em áridas noites
de cães famintos.
migalha,
ração cozida
em lenha alheia
é nosso sustento
nossa lembrança.
quanto passado
contém uma migalha
de prazer?
quantos silêncios
imagens
ardores
saudades
enchem
o miolo
de uma migalha?
corpo mínimo
cheio de vozes
rasto de vento
ávido.
ao pão rei
entregamos
o trono
mesa de banquete
frágil ou incerta.
com a migalha
que nos cabe
saciamos
a fome.
e não fazemos
cerimónia.
cada migalha
possuída
é uma festa
pagã.
nosso
corpo
é uma
migalha
feita de tantas
estrelas.

*

(fotografia de lilya corneli)

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