12/02/09

áfrica da minha infância

eram tardes ensanguentadas. poisavam gaviões e o rio corria entre as mãos febris da infância. de calções e a pele cintilante do suor. áfrica. moçambique. matola. nomes. lugares que me recrutaram para o capim. onde uma negra. de seios fartos. me acolheu na sua esteira. à sombra de uma palhota. e me arrancou os primeiros arfares do prazer. tantas as assombrações naquelas tardes. em que fumava às escondidas. e tudo era terra. lonjura. a bola chutada nas salinas. o rufar dos tambores. em noites plenas de escuridão e mistério. o meu verdadeiro nome. escrevi-o nessas paisagens. nome de garoto que fui. nome da lua. que naquelas tardes ensanguentadas. se enchia como um balão. e eu pensava que havia baloiços e escorregas dentro do balão. os mosquitos zuniam. o quarto era uma estufa. e eu sonhava com cajueiros e lagartos que andarilhavam pelos muros da casa. nessas tardes ensanguentadas. como o Indico a chamar-me. com as suas águas e algas. me perdi. em inocentes mergulhos. como se em cada banho. eu renascesse. e em cada tarde ensanguentada. por aqueles poentes desmesurados. eu sentisse que havia de ser mais um ramo. mais uma rua de areia. ou uma manga que deixa seus fios e seus derrames no corpo de um miúdo. sonhava. um dia ser adulto assim. besuntado de natureza.



(fotografia de luko gr)