
lábios que leio
e às tantas. já não há qualquer diferença. entre as
palavras que escrevo.
e o que leio nos teus lábios.
aprendi. há muito. a distinguir. o corpo. da palavra.
dou-me conta. agora. que o breve relevo. de uns lábios.
pede todas as palavras.
todos os idiomas.
há. nos teus lábios. um vermelho rosa.
escrito. pelos taninos.
um suave murmúrio. que confessa o improvável.
e as ondas delicadas. que eles propagam.
são frutos. dançando. na copa das árvores.
elaboram sabores. em cada palavra.
os meus olhos. morrem nos teus lábios.
e na minha boca. instala-se. um começo. mudo.
de vontade.
quando me sento. a ler os teus lábios.
nascem. vertentes de água. leio-te.
ao contrário. e volto ao princípio.
na união dos teus lábios.
os anjos. por ordem da natureza.
quiseram vingar-se. do mal.
e mandaram cerzir. a perfeição.
para que entre as palavras. que escrevo.
e os teus lábios. que leio.
um beijo.
ficasse lacrado.
*
(imagem de deviantart)