25/02/09




lábios que leio


e às tantas. já não há qualquer diferença. entre as
palavras que escrevo.

e o que leio nos teus lábios.

aprendi. há muito. a distinguir. o corpo. da palavra.

dou-me conta. agora. que o breve relevo. de uns lábios.

pede todas as palavras.

todos os idiomas.

há. nos teus lábios. um vermelho rosa.

escrito. pelos taninos.

um suave murmúrio. que confessa o improvável.

e as ondas delicadas. que eles propagam.

são frutos. dançando. na copa das árvores.

elaboram sabores. em cada palavra.

os meus olhos. morrem nos teus lábios.

e na minha boca. instala-se. um começo. mudo.

de vontade.

quando me sento. a ler os teus lábios.

nascem. vertentes de água. leio-te.

ao contrário. e volto ao princípio.

na união dos teus lábios.

os anjos. por ordem da natureza.

quiseram vingar-se. do mal.

e mandaram cerzir. a perfeição.

para que entre as palavras. que escrevo.

e os teus lábios. que leio.

um beijo.

ficasse lacrado.



*


(imagem de deviantart)