14/05/07


ladrão de lápis


já dormiu com ele em residenciais. hotéis. três quatro cinco estrelas. e nunca o viu a esconder nada na mala de viagem. toalhas. roupões. chinelos. toucas. shampoos. sabonetes desses que não escasseiam em quartos de hotel. mas as cartas que chegavam no dia seguinte a cada encontro eram quase sempre ilegíveis. letra escangalhada em magras folhas arrancadas de blocos com logótipo de hotel. cartas rabiscadas a lápis de carvão. insignificantes pedaços de papel amachucados. muitas notas. sublinhados. negros esboços nas margens. duas ou rês frases perdidas num pequeno formato a12 que a deixavam perplexa. até que num regresso apressado de mais uma pernoita ela reparou no olhar voraz. mãos predadoras embolsando blocos e lápis do hotel. mas ele não lhe deu tempo. roubo. é verdade. bloco e lápis de todos os hotéis em que nos entregamos sem tempo marcado. sem pudor. e em cada bloco anoto tons de pele. a melodias dos abraços. blocos e lápis. maestro e batuta. a orquestração do desejo. das carícias. gritos bruscos. irrepetíveis. e tantos os esquissos guardados. tantas as manchas nessas maltrapilhas folhas. para quê? parece-te improvável. eu sei. ando a coleccionar cópias de todas as cartas de hotel que te envio. e sabes porquê? para que um dia recebas em encomenda lacrada a partitura. banda sonora do teu clímax. percebes agora porque troco um. dois blocos. dois. três lápis. por todos os roupões de hotel?