25/05/07


canto da montanha

a cidade estrangula. o ar que respiramos. há uma cilada em cada semáforo. os cartazes pendurados nos altos prédios. são paraísos inexistentes. por detrás. dos gigantescos sonhos de papel. os salteadores. aguçam facas. embrulham armadilhas. engendram a morte. tenho medo. levas-me à montanha? a dois mil metros de altura. é inverno. um frio tépido. ar puro. para onde emigram os amantes. lá em cima. as lágrimas molham. livremente. os tristes. olhos. secos. que arrastamos pela cidade. lá no alto. sentimo-nos donos de um quarteirão. de felicidade. as nuvens. roçam o chão de erva. como vestidos de noiva. atam. laços brancos. no verde dos montes. lá em baixo. a cidade. é uma descomunal maqueta. à montanha. chega apenas. o eco. da pressa. do medo. a savana. é o escudo. onde todo o mal. faz ricochete. lá em cima. os pássaros cantam. em coreto aninhados. no bosque. e há muitas flores. gardénias. astromélias. tulipas. e uma espécie rara. a que chamam aves do paraíso. anda meu amor. vamos apanhar. o próximo teleférico. na montanha. o chocolate quente. demora a arrefecer.

(escrito por a. serra a 1.11.06)

(fotografia de marcio garvão)