
carta de verão
o verão gasta-se meu amor. e ainda não cumprimos o que gizamos na areia. escrevo-te de uma rocha abandonada pelo mar. pedaço inóspito. de conchas engastadas. ou serão lapas? unhas negras ferem a pedra. outrora preenche de algas. sargaço. a rocha era uma árvore. agora sento-me num talude de relva seca. o pescador olha o oceano. estão a ver lá ao fundo. aqueles carneirinhos brancos a cavalo nas ondas? vem aí nortada. pela certa. o verão gasta-se meu amor. e nós. não tarda. seremos ameias afogadas num castelo sem defesas. na praia. há ainda restos. de muitas pegadas. tantas caminhadas. pequenos lagos que as noites cavaram. abrigos de amantes foragidos. o verão gasta-se meu amor. a nortada levanta ferros. besunta a pele. areia. sal. o lixo dos emigrantes. é tudo pegajoso. erosão. não era bem isso. o que tínhamos planeado. lábios salgados sim. mas de água e suor. e vento leve. uma túnica. tudo começou. lembras-te. naquela tarde. dedos a correr pela areia. em círculos. mapa dos nossos encontros. desenhado no escaldante tapete de areia fina. escreveste um verso de drummond. " o chão é a cama do amor urgente". foi aí. que tudo se revelou. combinamos. fechar as casas. trancar as janelas. algemar as portas. fugir. cães vadios em veredas de luar. celebrar o estilo em contra mão. não voltar à cama. fazer tábua rasa. dos actos repetidos. a xis horas vestimos o pijama. fazemos amor. amar.amar. sim. mas. em horas irregulares. corpo a corpo. no ultravioleta máxima. erva escrava dos esticões. dos espasmos. bendita fúria. e na barraca listada de azul. à meia noite. dentro de ti. cova de areia molhada. a lona estremece. as trevas guicham. e tu. uma corrida até ao extremo do pontão. na hora da telenovela. saias levantadas. o vento marítimo. a farejar-te. as coxas. o pescoço. mamilos arrepiados. perna levemente alçada. costas arranhadas. pelo cordame. gritos que ecoam no oceano. travar a fundo. na estrada. o caos do trânsito. esfregamo-nos. no capot. até ao verde do semáforo. último estremeção. não finda. desejo castigado. que bom! até novo cruzamento. o verão gasta-se meu amor. e agora? adiamos tudo. para o armazém do inverno?