
carta de outono
não sei. meu amor. que horas sseão as tuas. no meu relógio chove. as árvores despem-se das folhas em lentos suspiros de outono. e tu. não apareces. se agora fosse. uma hora da tarde no verão. eu não chorava. no verão a luz é excessiva. os pássaros andam loucos. o cio. é um desatino sazonal. no verão. somos. gente desabitada. no céu sossegado. do outono. as tuas lágrimas. meu amor. argumentam com a saudade. chamam-me. para lugares. onde os rios e as nuvens. amealham. pequenas fortunas de completa eternidade. outono. meio caminho da velhice. o cheiro a terra molhada. o sol. rente ao telhado. ajoelha-se. e sós. contemplamos. sem pressas. uma vela que se apaga. a crispação dos frutos. queimados de geada. as tardes de outono. enchem os olhos. lenços de névoa. ficamos mais sábios: "por prazer da tristeza eu vivo alegre". quem dera. que a esta hora. chovesse nos teus olhos. meu amor.
(escrita por a. serra a 7.10.06)
(fotografia de augusto peixoto)