04/12/07


servidão

não suporto os olhos.
longe de ti.

doem-me as têmporas

as aves do rio atravessam
cansadas
a luz que os peixes saquearam.

quero-te única
na vaga medonha
das lembranças

se me dissesses
que és um pouco mais feliz
por seres corpo e pele
do poema.

só os teus olhos escrevem
no meio desta servidão
a palavra dor.

olhos tão ausentes
como uma carta
extraviada
que nunca chega.

sabes o que é a noite?
é um lugar imaginado
donde foges
sempre que me aproximo
dos teus lábios.

sabes o que é a morte?
é não existires
para além
de um instante
de ficção.


(fotografia de abrito)