27/01/09

naquele poente

só naquele
poente
o tempo
se resignou
ao murmúrio.
não era o sol
que declinava
nem a noite
que pedia licença
para entrar.
era a palavra
que em silêncio
ia povoando
nossos olhos.
até a esse momento
em que a natureza
com a sua tímida claridade
vencia
todos os embaraços
nem tu
nem eu
sabíamos
que no fim de
uma frase
os sorrisos
de ambos
haviam de congregar
toda a luz do poente.
anoiteceu
e os teus lábios
ardiam
num dardo
de sol.
os vizinhos
já ceavam
em salas densamente
iluminadas
e o teu rosto
era a pele da manhã
ainda
sem rugas
nem trepidação.
se foram
as escassas palavras
que trocamos
ou os teus
cabelos que
confiscaram
a prata
incandescente do rio.
não me perguntes.
sei que o tempo
cessou
naquele poente.
e eu tive medo
de te beijar.


*
(fotografia de marta ferreira)