
inúteis poetas
às vezes, dizes,
não estamos
virados
para
versos.
é aborrecido
ler um poema.
branco
sobressalto
do nada.
e lá fora
a energia escura
interroga-nos:
os poetas
engendram
inúteis carícias
paisagens
deslocadas
intervalos
fictícios.
é quando descemos
à sujidade
das falésias
e descalços
derrubamos
capitéis e santuários
de desperdícios.
às vezes, sabes,
apetece-me a tua voz
e o corpo escorrido
na palavra
em calculados
requebros.
outras, parece-me
ver-te à janela
desafiando
a tua própria desilusão
em dobradas
páginas
de romance.
e as tuas lágrimas
apenas sublinham
em certos parágrafos
o que já sabias
sobre o mistério
do desencanto.
muitas vezes, sabes,
nem os poetas
imaginam
que são
componentes dispensáveis
na indústria dos artifícios
bom bom
é vir para a rua
sujar as mãos
enterrar ilusões
no lodo
beber absinto
a mandar
á merda
os poetas.
já há poesia
que baste
no silêncio
insuportável
da insónia.
*
(imagem de augusto peixoto)

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