
manhã
manhã indecorosa
que chega em transe
queimando o hálito branco
dos teus olhos.
manhã ladra
arromba portadas e janelas
rouba o verde das jarras
o ar do pátio.
manhã escrava
de peles desavindas.
puta de manhã
em fogo cruzado
sobre alcovas inocentes.
manhã púdica
que veda o acesso
à roda do vestido
odor marítimo
do sol orvalhado.
com uma manhã
assim assanhada
já nem os olhos
podem velar em sossego
o altar
em profana oração.
*
(pintura de mirko borane)