o beijo
é no bosque claro do teu umbigo
que a concha abre um sorriso salino
leque de suor
cachoeira de espuma
é no teu ventre
que as flores derramam sementes de luar
é nos teus lábios pequenos
que a minha língua se lembra
quando ao anoitecer
o meu corpo já não sabe medir
a latitude da fome
é de ti
que o meu sangue pede
que regresses
por uma ponte móvel
por um cargueiro clandestino
por uma porta traseira
tudo porque é num pátio
inacessível aos outros
que as nossas bocas
manejam
em liberdade
as alavancas do desejo.
*
(fotografia de pablo franco)
(fotografia de pablo franco)