18/06/08


a insustentável leveza da palavra


quando as palavras já não sustentam. o peso de um sentimento que ocultamos. com um medo aterrador. de nos tornamos. emigrantes ilegais. num coração naturalizado. há muito. na pátria da fidelidade. elas. as palavras. servem apenas. para preencher. o espaço vazio. em que inventamos. um quintal semeado de nada. e nada é mais brutal. que a sensação de nausearmos. o abandono. convencidos. que estamos em perfeita comunhão com um corpo. sedento de amor. no jogo de enganos. a palavra. é uma muleta carunchosa. pobre escritor que se atreve. a descrever como erótico. aquele instante. em que uma mulher. sentada a seu lado. quase ausente. finge uma terna quietude. como quem assiste. no escuro do teatro. à estreia de uma carícia.


(fotografia de mava)