confesso. fui eu que te liguei meu amor. só para ouvir a tua voz. como quem rouba um búzio. e põe-se à escuta. o mar vai e vem. cantata matinal. não. não foi nenhuma cilada. não te liguei. como tantos outros já o fizeram. para te deixar confusa. amedrontada. liguei-te. por recomendação médica. sempre que o dia tinja as suas horas. de tristeza. ligue a uma voz. não a uma voz qualquer. tem que ser um timbre amendoado. uma tonalidade que arrepie. hálito de fonte. tiras de seda à roda do pescoço. aconselhou-me o médico. com uma voz assim. pode reduzir à dose . serenou-me o doutor. cumpri à risca a prescrição. o médico só não sabe. que a tua voz. tem efeitos secundários. graves. e logo agora. que estava a largar os barbitúricos. ficar agarrado a uma voz. a tua. que é uma pedrada de rosas. um atordoamento. por isso. meu amor. hoje não resisti. fui a correr buscar o gravador. e sempre em ON. registei todos os teus: tá lá. quem fala? ai este quem fala! água de nascente. e. quando. já um pouco exaltada. atiras-me: quem é que está a gozar comigo. desse lado? apeteceu-me responder: sou eu meu amor. o viciado. o voz dependente. diz mais alguma coisa. uma palavra. e a minha alma. será salva. rogo-te. em jeito de oração. tu. cansada de tanto silêncio. perdeste as estribeiras. badamerda! e desligaste. ficou tudo gravado. o badamerda. e todos os quem fala? desculpa o abuso. mas. só assim. meu amor. posso atenuar a ressaca. e badamerda o doutor. que não tem que me impingir. uma rígida posologia. cá para mim. a voz. a tua. é para ser ingerida. às pazadas. pronto. só te volto a ligar. quando no gravador. a tua voz. já não soar. cristalina.
(fotografia de mariah)
