
prenda
entardecia. quando, subitamente, um velho manuscrito deu à costa.
carta perdida numa amalgama de estrelas do mar. a bailar no pico de uma onda.
no seu festim marítimo, o oceano arma a boca predadora. e devora tudo.
depois. inunda as margens. restos de minério. proas de salitre. carcaças de navios.
raramente deposita cartas. como esta. cansada de atravessar mares desconhecidos.
histórias rasuradas pelas altas marés. resta uma espécie de anunciação.
leio: um dia vou ser a tua prenda.
subo a um degrau do penhasco mais alto. e na ruína de uma pedra
escrevo: meu amor, no dia em que fores a minha prenda.
deixa-me que te desvende com o mesmo espanto, o mesmo tremor com que desatei a primeira oferenda da infância.
nó a nó. laço a laço. o segredo revela-se em puro êxtase.
até que te desnude. e nas minhas mãos suadas
eis que se ilumina um corpo de mulher. polvilhado de canela.
beijo-a. vagarosamente. poro a poro.
lambo gulosamente os seios firmes e luzidios como frutos.
respiro longamente o ar dos cabelos.
estendo-me. rebolo. excito-me nuns lábios de mar.
e morro. amarrado àquela prenda. ao suor das coxas.
num coro de gemidos.
(fotografia luis borges candido)