praia de vento na praia
os ventos ferem
os olhos
e os veleiros
entornam sobre a esteira do mar
amargas nostalgias.
oiço o assobio
da nortada na tua vidraça
donde me observas.
uma folha perdida
trepida
nos teus olhos
como um pássaro exilado.
um alto guindaste ergue-se
nas trevas.
e eu quero morrer
depois de um passeio
pela beira mar
nestes dias
em que o vento
cega
o horizonte.
procuro na maré
indómita
uma vaga mais calma
igual à carícia
que certa noite
me ofertaste
entre espuma e suores.
talvez ainda vá a tempo
de cancelar a morte.
talvez.
se o tempo
em que me adio
trouxer o teu corpo
o teu sabor.
minha boca
carregada de mel.
*
(imagem de desconhecido)

3 comentários:
Bem-vindo homem-poeta, que saudades. adorei o texto.
*
Cancela a tua "morte", poeta dos silêncios. Vem...com a tua escrita! Vem... entre a "espuma e suores" com a tua "boca carregada de mel".
É escrevendo que te libertas das palavras e fazes sonhar os espíritos inquietos.
A UM AUSENTE
Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.
Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?
Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.
Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste
Carlos Drummond de Andrade
*
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