22/10/08


morte anunciada

a morte veio. por um rio indolente. a morte mais cobarde.
o súbito falecimento da alma. quando o corpo era ainda um manuscrito inacabado. a cera branca da infância. permitia ainda muitas merendas sobre finas lâminas de erva. e vitrais de águas doces. quem encomenda a morte. por antecipação. cava o túmulo. num espelho de fumo. teme a sombra das palavras. o ranger de um coração enferrujado. versos que o poeta gravou. numa lasca de xisto. aos olhos da tribo.
meu amor. o poema não é um oceano vedado. o poema é um afluente. que nasce no rio dos teus olhos ou no arfar anónimo da multidão.
sim. meu amor. o poeta mente. porque ignora o ruído que se levanta. à tona de água. porque há um coagulo. uma verdade submersa. na engenhosa nascente da poesia. neste momento que anuncias. a tua morte. por telegrama. nada mais posso acrescentar. os dois braços que vinham ao meu encontro. afastam-se como lábios de um mar esquartejado.

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(fotografia de lena queiroz)