17/06/09


mar de silvas


vem

chamo-te

deste penhasco árido

em que as lágrimas

embrutecem

e a paisagem

é um mar

de silvas.

vem.

antes que

o poente

descarrile

num outeiro de sombras.

e o teu sorriso

encerre

o primeiro

olhar



*


(imagem de deviantart)

16/06/09


abrir uma carta


tenho a mão cansada
doem-me
as pálpebras
e meu corpo
é um porão
vazio.
nos teus olhos
onde o mar
é mais sereno
ninguém usurpa
o silêncio.
estarão neles
a salvação?
quem sabe?
ou então
nesse sorriso
que se deita
mansamente
sobre este poema
e deixa
uma silhueta
de anjo.
as palavras passam
por nós
como inúteis
turistas.
queria tanto
ir à Ópera.
encontrar-te
nas escadarias
sentir a Cármen
dilacerada
pelo amor.
correr
saltar
atravessar
o riacho.
e quando o sossego
voltasse
a dar-me
mão.
abrir uma carta
e ler o teu
sorriso
a olhar

para mim.


*


(imagem de deviantart)

15/06/09

poeira que ri


pousavas a mão. na incrédula sombra. que em teus joelhos.

girava. enquanto. eu. preso à imobilidade das horas. lia poemas.

e olhava-te nos olhos. um deserto branco. alastrava. no teu

rosto. nenhuma palavra. acendia. um rubor. um sorriso.

pobres versos.que contra a melancólica luz da tarde nada.

podem.
fossem eles. os poemas. aquela promessa de felicidade.


que a
noite. elabora. em amados enganos. de ocasião. e tudo
era

desigual. a poesia. amealhava. glórias e etílicos arrebatamentos.

mas o poeta. que não imagina. a que horas o leitor. canta. e diz

em alta voz. seus versos. intemporais. um dia saberá. que à

tarde. o poema deve ser. conservado. higiénicamente.

porque. lida ao vento. do entardecer.

a poesia. é poeira que ri.



*

(imagem de andrea b)

11/06/09

da carícia ausente


pela memória

ainda passam

as tuas mãos.

agora

quando abro

os punhos

uma certa

aridez

torna mais

frio

o tacto.

da carícia

ausente

canta o mar

que já não

se exprime

como outrora.

quando

a ondulação

eram

pálpebras

azuis

e os corais

ilhas de vidro

onde

habitavam

os nossos

beijos.


*


(imagem de mariah)