29/04/09

vinte e três


eras a página 23. deitada em caracteres romanos. gosto de andar nua. em letras antigas. confessaste. no primeiro parágrafo.
antes ainda de eu concluir. o enredo. foi então. que no branco da página. te despiste. as tuas ancas. eram acentos. circunflexo.
e os teus mamilos. chapéus de mandarim. passeando pelas margens. de um rio mandrião. apagavas frases. com lenços da índia.
e eu enxugava o meu suor. à tua pele. seriam de papiro os teus ombros? pedi-te que descesses. queria que perfumasses a página.
detesto o cheiro a papel pardo. o teu corpo. era toda a página 23. os teus flancos não era um mata-borrão. nem pontos finais. os teus poros.
olhavas-me. languidamente. do alto das interrogações. e eu beijava-te. em sucessivos travessões. nomeei-te guia. da 23.
e teimei em não sair daquela página. sabia que ao permaneceres. ali. deitada. como os teus olhos em itálico. e os lábios em requebro
rosáceo. o romance que naquela altura. não passava de um ligeiro esgar. estava concluído. bastava só. esticar-me. nos teus cabelos.
e chamar 23. ao nosso primeiro orgasmo. escrito em letras romanas.






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(imagem de erlandpil)

23/04/09

sorriso nu


ando descalço. pelo teu sorriso nu. e leio um escondido alerta nos teus olhos: no meu sorriso. passeia. invisível. um príncipe voador. o chão do meu riso. não tem rugas. dizes. e eu procuro-te. descalço. e sinto que não ando. vagueio. há sim. no teu sorriso. um chamamento marítimo. por isso embarco. e alcanço alvas margens. areia enrolada numa luz matutina. por isso. se diz. que o teu sorriso é uma manhã mais clara. que todas as manhãs de primavera. entro nela. mesmo de noite. quando o silêncio. se debruça no leito. e na lembrança. a manhã do teu sorriso. chega com a aragem tépida do anoitecer. e eu lavo-me. no teu sorriso. dispo-me nele. e tu. sem notares. sorris. como sempre. sem saberes. que ando descalço no teu sorriso nu. e de tanto. percorrer o teu sorriso. já o habito. e beijo-o. e amo-o. no teu sorriso nu. já há uma prega do meu sorriso. acontece. aos sorrisos. que nos chamam. e nos perdoam. acontece que o teu sorriso. é um pórtico. de um paraíso desconhecido. um arco de luz. nos negros dias. da tristeza.


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19/04/09

noivar

não era domingo. mas eles noivaram na sombra de um quarto silencioso. pela fina rede de malha cingida. uma pomba voou. e voaram carícias. beijos. abraços numa coreografia. perfumada. ela preparou-se para o noivado. com rendas e espartilhos de seda. vinha. armada. e ensaboada. para a batalha. mas foi largando. as armas. uma a uma. até que a nudez. suou. e com o corpo. assim. abandonado. no campo de linho. houve música. cantaram os olhos. e os lábios. entoaram um coro intimo. caíram romãs e morangos nos rostos de ambos. as flores. eram esterlicías. estavam em pleno festim. os amantes. sem convidados. nem palavras e sacramentos. uma pagã liturgia apoderou-se dos corpos. e pelas ranhura das paredes. o vento enrolava. amores perfeitos. secretamente oficioso.
religiosamente pagão. aquele noivado.


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(imagem de grendel)

13/04/09

bizarra flor


sei de uma flor que se agarra á chuva e chora.
uma flor de pétalas arroxeadas.
que se comove. e ama. presa
ao caule encarquilhado das árvores
mutiladas.
quando a chuva. cai. em cordas
sucessivas. a flor amotina-se.
e ergue o perfume. como uma espada
de gume flagrante.
esta rara. flor. em dias de sol. abundante.
despetala-se em carícias. e beijos perfumadas.
dizem os botânicos. que esta espécie.
sofre de uma estranha parónia.
uma flor. quase mulher. que no canteiro mais sombrio
do jardim. vai perfumando as pétalas. alisando-os.
em prolongadas horas.
e mal o sol desponta.
ela. toda solicita. distribui pétalas. a amantes desavindos.
eles. os amantes. escrevem cartas de amor. testemunhos
de reconciliação. sonhos perfumados. em vegetais cartas.
nos dias de primavera.


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02/04/09



caminha


caminha. meu amor. pela indízivel sinfonia das aves nocturnas. ouve os meus passos. eles são o rouco meditar da solidão. procura-me. entre as húmidas giestas. do amanhecer. abraça-me. as estrelas que nos guiam. desertaram. e só nos resta. esse escuro canavial. onde tantas vezes. os teus olhos me levaram. apenas por um beijo. ou por um arrepio de ternura. na cidade. tu sabes. a conjura dos fariseus. faz de nós. estranhos viajantes. perdemos o olhar. e aquela desmedida vontade. de girarmos no pião da infância. a ponte levadiça. é uma barreira imposta. pelos que teimam. em proibir que os nossos corpos. sejam barcos ou poemas. com que partimos rumo ao que não vem contado. nas páginas dos jornais. somos notícia. do amor ausente. no açude. distante. o teu sorriso. é um veleiro encalhado nas minhas lágrimas. e os meus olhos. breves alusões. ao beijo. que nos roubaram. na alfândega.


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(imagem de deviantart)