31/12/08


corpo

que conhece

as duras

tábuas

da solidão

só na miragem

é-lhe

concedido

um arremedo

de absoluto.

na blindada

monotonia das horas

que antecedem

um novo ano

só as vogais

abertas

ou os frutos maduros

que naquela tarde

de um anónimo dia

de inverno

provamos

brindam ao

rasto da lua

o sabor

a maçã

da tua pele

e tornam

substantivos

os mandamentos

do calendário

ou os foguetes

de um outro

alvorecer

no espelho

dos teus

olhos.



*




(imagem de autor desconhecido)

29/12/08

o suporte da música

o suporte da música pode ser a relação
entre um homem e uma mulher, a pauta
dos seus gestos tocando-se, ou dos seus
olhares encontrando-se, ou das suas

vogais adivinhando-se abertas e reciprocas,
ou dos seus obscuros sinais de entendimento.
crescendo como trepadeiras entre eles.
o suporte da música pode ser uma apetência

dos seus ouvidos e do olfacto, de tudo o que se
ramifica entre os timbres, os perfumes,
mas é também um ritmo interior, uma porcelana
do cosmos, e eles sabem-no, perpassando

por uns frágeis momentos, concentrado
num ponto minúsculo, intensamente luminosos,
que a música, desvendando-se, desdobra,
entre conhecimento e cúmplice harmonia.



Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"

(pintura de jia li)




27/12/08


fecho-me num biombo e oiço num prolongado eco a minha própria pergunta:"como serão agora os poentes na lagoa dos teus olhos?"

toma a hóstia da minha voz.

não rezes. beija-me.

na tua pele sem grão. escrevo a palavra solidão.
*
(fotografia de paulo cesar)

24/12/08





*
(fotografias alberto viana d`almeida)

22/12/08








A saudade é um porto sem cais. navegas em mim. como um barco desgovernado. se nos teus olhos há um farol. acende-o. não toleres que o silêncio. o mar. a escuridão. a ausência. cavem rombos. nas mãos temerosas que zarpam de mim.



*


(fotografia de alba luna)


15/12/08




Não calo a voz que toca a pele da memória?
Que norma, lei, moral, ameaça ou chantagem. podem proibir-me de sentir. com a mais livre asa dos desprevenidos: gosto de ti no arco luminoso de cada palavra.
é o mar de verão. saborosa onda que chega livre e abundante aos braços do rochedo.
contra a solidão e a injustiça os teus olhos calibram o meu sangue...desejo-te...
*



(fotografia de sara sá)

02/12/08





os teus olhos escrevem silêncio. quando todos os outros esgravatam no lado das palavras.

as tuas mãos abrem a manha. pousam a luz do sol. onde as outras só arrastam sombras coadas em cada gesto positivo.

o teu corpo é o templo da eterna adolescência. enquanto outros envelhecem em fogo pálido por um instante de prazer.


*


(pintura de barbara cole)